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Revista Internacional de Espiritismo • Fevereiro 2019
A visita “E você sempre me dizia que a morte não existe, apenas vestimos uma roupa invisível e logo a gente se encontra no Céu, não é?”
Yeda Hungria
yedahungria@yahoo.com.br
01/02/2019

Densa penumbra envolve luxuoso dormitório. Mobiliário refinado, vasos em opalina da Boêmia, óleos da escola de Flandres, tapeçaria belga, ornatos venezianos denunciam abastança e requinte do ocupante.

Renato, 70 anos, se tanto, recupera-se no leito. Privado da fala e de movimentos físicos, restam-lhe lucidez, visão e percepção auditiva, solitárias receptoras do mundo dos sentidos. Às solicitações retribui com o piscar de olhos, assim estabelecido.

Enfermagem atenta, familiares devotados assistem-no com desvelo. Nada lhe falta. Alheio à dinâmica do cotidiano martirizam-lhe, no entanto, reminiscências e o constrangido ócio.

“Sempre a exibir vago e perdido olhar num horizonte sem fim, como a buscar um qualquer quê em seu estágio terreno” — descreve-o Olímpio, o orientador espiritual nessa instrutiva jornada ao mundo físico.

Ao introduzir-nos no recinto o querido amigo surpreende a atividade de dois vultos egressos das províncias das sombras. Fortemente identificados com a dimensão menor, difícil distinguir-lhes as fisionomias tamanha a obscuridade que os envolve.

Incapazes de nos perceberem, dialogam friamente.

— Como ele está? — indaga um deles.

— No mesmo. Não sei como ainda resiste.

— Então, vamos atacar-lhe os pulmões. O coração será exigido e o sofrimento aumentará.

Ato contínuo, longos e esquálidos dedos lançam ao tórax de Renato dardos escuros, intermitentes.

A pouco e pouco suas funções orgânicas iniciam a registrar singular descompensação. Excitação nervosa, pulso arrítmico, taquicardia, sudorese, hipertensão arterial produzem-lhe acentuado desconforto.

Convictos da eficácia do ataque, retiram-se os verdugos.

Olímpio me convoca: “Rápido, vamos agir, ele vai entrar em anóxia!”

Projetamos as mãos sobre o órgão lesionado. Em sublime rogativa, o benfeitor busca suprimento profilático nos páramos celestiais.

O socorro não tarda. Intensa formação de partículas luminosas estaciona sobre o tórax agônico. Surpreso, vejo os dardos sugados e volatilizados em densa névoa ectoplásmica. Lentamente normalizam-se os sinais vitais e Renato se faz assintomático.

Solícita enfermeira oferece o desjejum e a primeira medicação. No relatório, um lacônico “Plantão noturno sem intercorrências”.

Olímpio agradece o socorro providencial e conduz-me a um ângulo do recinto. Em breves palavras esclarece a mecânica da intervenção. Em seguida, exibe-me na tela mental imagens dos fatos que levaram o visitado ao leito.

Vejo pessoas.

Renato se apresta a levar Davi, o neto amado, à pesca recreativa. Na garagem, seleciona minuciosamente os apetrechos. Da dedicada nora recebe lanches e acomoda o menino no carro.

Domingo azul, sol de verão partem animados.

Logo alcançam aprazível restinga na periferia da cidade. O esplendor da natureza, o cenário multicor de sublime harmonia fascinam a dupla, que desfruta de alegres momentos. O convívio das duas almas amigas é o que motiva.

Criaturinha especial, Davi se diverte com as histórias que o avô improvisa com rica imaginação, sempre elaboradas com edificantes mensagens. Almas afins, que muito se amam.

O dia exaure entre recreação e aprendizado sob o deslumbrante cenário da criação divina. Sem pressa o disco dourado submerge no horizonte rubro.

No retorno, Davi entoa canções que aprende na escola.

Súbito, o céu começa a entristar. Nuvens negras, trovoadas, descargas luminosas riscam o firmamento em rápidas sucessões. Árvores se agitam freneticamente. Pássaros buscam refúgio. Retirantes se movimentam apressados.

Antes de belo azul celeste, o cenário se transmuta em tristes pinceladas plúmbeas a prenunciar forte aguaceiro.

As águas não tardam. Desabam intensas, intermitentes, como cascata, tolhendo a visão de Renato. Prudentemente, estaciona o veículo no acostamento mantendo-o sinalizado. A apreensão é dissimulada com recreação.

A borrasca se alonga. O dia vira noite.

De repente, forte estrondo. O carro é violentamente atingido por enorme veículo enceguecido. Lançado despenhadeiro abaixo, contorce-se em loucas revoluções sobre seixos pontiagudos. O avô luta desesperadamente para proteger a indefesa criaturinha enquanto a massa metálica se torce, retorce, esmaga-se ante a fúria incontrolável da sucessão de impactos...

No hospital, após longo hiato temporal, Renato emerge do coma induzido. Aos poucos, a lucidez. Sabe-se tetraplégico, sem o domínio motor dos membros. Da família, a pior notícia: Davi, o neto amado, deixara o frágil corpinho entre os destroços do veículo.

O impacto, a dor moral, a tragédia lhes ultrapassam o limiar das delgadas fímbrias sensoriais. Um grito lancinante rompe o mutismo dos alvos corredores. Logo emudece. O sobrevivente assume grave sentimento de culpa e, incapaz de superar o forte conflito do psiquismo, somatiza-o em privação oral resistente ao procedimento médico ativo.

Devotado dirigente de instituição espírita, paradigma de genuíno cristão, apoiado na moral evangélica e na lógica da Terceira Revelação, Renato, sob o influxo do benfeitor Olímpio, empenhava-se nos serviços redentores de elucidação dos algozes de encarcerados no arcabouço físico. Bastante concorridas suas exposições doutrinárias em razão da sólida cultura da mensagem redentora. O envolvimento, a liderança, o entusiasmo, a busca da plenitude do Espírito, a conduta ético-moral exemplar criaram-lhe forte referencial como operador do bem. Sua ausência repercute nos serviços mediúnico e assistencial da instituição.

As imagens exibidas por Olímpio se desvanecem com a entrada de familiares. Reunidos em semicírculo, a rotineira exortação matinal invade suavemente o recinto em expressões de ternura e estímulo. Renato ouve atento.

Jovens Espíritos se apresentam. Banhados em suave luminosidade, saúdam-nos com melodias enternecendo recônditos sentimentos. O introito faz prenunciar algo extraordinário.

E não tarda.

A claridade se intensifica em exuberante fulgor. Sublime entidade se aproxima à frente de reduzida comitiva. De superior hierarquia, apresenta-se envolta em policrômicas cintilações variando do azul celeste ao amarelo ouro. Com mediana estatura, barba longa encanecida, voz rouquenha e pausada, contagia-nos com forte emoção. Momento de excelsa angelitude!

O benfeitor saúda amorosamente a contrita assembleia. Convida-nos ao leito de Renato e inclina-se contemplativo, em respeitoso silêncio.

O assistido expande sua faculdade medianímica de vidência e em lágrimas registra a abençoada presença espiritual. Mentalmente exclama comovido: “Seja bem-vindo, Dr. Bezerra! Sua paz conosco!”

Olímpio anuncia Renato como digno trabalhador da seara divina, de nobre contribuição com o serviço de reabilitação de almas, transformando trevas em luzes e roga ao visitante, se permitido for, oportunidade para que possa retornar à oficina do bem.

O “médico dos pobres” ouve atento ao apelo do suplicante na sentida exposição. Ao final, sinaliza com brandura:

— Muito digno o apelo em favor deste legítimo servidor, titular de méritos. Veremos o que nos poderá ser permitido fazer. Aguardem-me.

O benfeitor se esvanece suavemente.

A comitiva espiritual se posta em oração, sustentada por harmoniosa melodia.

Alheios à grandiosidade do momento, familiares participam das comoventes exortações da devotada matriarca.

Decorridos poucos minutos, retorna o abençoado emissário. Faz-se acompanhar de sorridente Espírito envolto em alvas vestes. Surpreso, Renato identifica o recém-chegado e brada a plenos pulmões:

— Davi, neto amado, você voltou! Quantas saudades! Perdoe-me por não conseguir socorrê-lo!

Atônitos com a repentina explosão vocal do antes emudecido, os familiares se tomam de incontrolável emoção e dão-se conta de que algo transcendente está em curso.

O menino responde-lhe docemente:

— Vovô amado, agradeço o que fez por mim, mas bem sabe, um dia somos chamados de volta... Não importa como ou quando... E você sempre me dizia que a morte não existe, apenas vestimos uma roupa invisível e logo a gente se encontra no Céu, não é? Pois foi o que aconteceu! Vovó me tirou do carro e vestiu-me a roupa invisível. Sei da saudade e da dor em seu coração, mas não se culpe ou se martirize, apenas terminei um tempo que me restava. Estou com vovó, mas algum dia estaremos juntos novamente. Ela diz que você ainda tem muito a fazer! Pense nisso... Adeus, vovô querido!

Renato soluça intensamente. Não consegue controlar a forte emoção. Lágrimas jorram incessantes pelas faces pálidas. Somente então percebe-se liberto da mudez.

Um hino de gratidão ecoa pela câmara envolta em luzes multicores. Arrebatada, a pequena assembleia familiar se põe reconhecida ante o fenômeno metafísico.

Desde então, Renato é conduzido à instituição espírita, onde, diante da luta redentora e inspirado pelo benfeitor Olímpio, instrui e conforta os seres dos dois domínios existenciais, com o mesmo vibrante entusiasmo de outrora.