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Revista Internacional de Espiritismo • Janeiro 2019
Atendimento fraterno a homossexuais e outras identidades de gênero na casa espírita Acolhimento deveria ser o elemento norteador de todas as igrejas que se intitulam cristãs
Ailton Gonçalves de Carvalho
ailtoncarval@gmail.com
01/01/2019

“Felizes aqueles que se encontram a serviço da fraternidade, atendendo aos seus irmãos em sofrimento e contribuindo com segurança para sua elevação.” (Joanna de Ângelis)

Ao realizar uma pesquisa na internet sobre religião e sexualidade, tomei conhecimento de algo que avalio como estarrecedor: a grande quantidade de irmãos que, por serem homossexuais ou transexuais, sofrem preconceito e discriminação de algumas igrejas tradicionais. Este processo de segregação ocorre em forma de insultos e ameaças com o sofrimento eterno após a morte, tendo a Bíblia como fomentadora de tais ensinamentos. Segundo alegam seus interpretadores, ser homoafetivo é anormal, é uma perversão, é uma desobediência a Deus e todos os homossexuais ou transexuais são doentes da alma e, portanto, pecadores. Esses irmãos, que já sofrem com as violências física, psicológica e verbal por parte de uma sociedade homofóbica, têm também que lidar com pessoas que se dizem cristãs, mas os consideram personae non gratae.

Sentindo-se desrespeitados, muitos abandonaram os bancos das igrejas e tornaram-se ateus ou, no intuito de continuar sua devoção ao credo escolhido, fundaram suas próprias igrejas. O pastor Marcos Gladstone é um exemplo. Cansado de esperar pela acolhida da igreja que frequentava, fundou, em parceria com seu companheiro Fabio Inácio, em 2006, a Igreja Cristã Contemporânea[1], que hoje conta com onze sedes nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, e mais de 1.800 membros, sendo 90% deles homoafetivos.

O pastor Marcos refere-se a uma situação que deveria nortear todas as relações dentro das igrejas que se intitulam cristãs: acolhimento. Conforme definição do dicionário, “acolher é oferecer ou obter refúgio, proteção ou conforto físico e espiritual; amparar; dar ou receber hospitalidade; recepcionar; aceitar; dar crédito a; levar em consideração (pedido, requisição etc.); atender”. Assim qualquer instituição religiosa deve ter como premissa oferecer toda atenção possível aos irmãos.

Muitos homossexuais, transexuais e bissexuais não encontrando apoio e acolhimento desejados em outras instituições religiosas, desembarcam nas fileiras espíritas com enorme expectativa. Nesse contexto, o centro espírita deve apresentar-se como diferencial para aqueles que buscam uma explicação imediata dos Espíritos para sua condição atual. Precisam, necessitam e devem receber toda atenção possível.

Normalmente, após serem recepcionados por aqueles responsáveis por tal atividade, são encaminhados ao atendimento fraterno onde terão o primeiro contato com os ensinos espíritas. As instituições devem preparar os trabalhadores para tal ocorrência, tanto no aspecto do conhecimento doutrinário como no aspecto do conhecimento científico.

De acordo com Divaldo Franco, Allan Kardec estabeleceu três bases normativas de dignificação do movimento espírita embasado nos ensinos de Pestalozzi: trabalho (administra o conhecimento, liberta-se, esclarece-se); solidariedade (conduz à união, tornando o ser parte integrante e equilibrado de um todo) e tolerância (permite a convivência e a compreensão dos limites de cada um, inclusive os próprios). A casa espírita é um local de trabalho (para todos), de solidariedade (entre todos) e de tolerância (para com todos).

Joanna de Ângelis sugeriu, levando em consideração essas bases normativas de Allan Kardec, o tríplice formato para aplicação nas casas espíritas visando à iluminação destas: espiritizar, qualificar e humanizar[1].

• Espiritizar: reviver a doutrina em suas bases doutrinárias na sua essência, sem adulterações, modismos, adaptações e sem outras correntes ideológicas.

• Qualificar: adquirir a consciência da responsabilidade e do conhecimento necessários à tarefa do bem; é saber o que fazer e como realizar sem ser exageradamente instruído ou técnico, mas ser, ao menos, preparado para a tarefa; procurar melhorar as qualidades morais, sociais, familiares, funcionais e as de trabalhador da casa espírita; não é elitizar ou intelectualizar. 

• Humanizar: tornar-se um movimento eivado de sentimentos puros; sair da forma mecânica de ser; transformar em local que exala instrução com amor; do acolhimento fraterno; do respeito às diferenças; desenvolver o sentimento de irmandade entre seus frequentadores; unidade de sentimentos.

A preocupação em qualificar seus trabalhadores deve ser uma prática natural de qualquer instituição séria, mas dentro da realidade e obedecendo aos imperativos intelectuais, morais e disponibilidade dos trabalhadores. Algumas atividades só devem ser iniciadas quando os trabalhadores tiverem domínio de conhecimentos específicos para tal mister; noutras, o mais importante é força de vontade e comprometimento.

Dentre aquelas que exigem uma formação mais profunda cito o atendimento fraterno. Não basta apenas ter boa vontade, tempo e disponibilidade. São necessários alguns conhecimentos básicos e muita força de vontade para as transformações morais que a atividade exige quanto ao atendimento, principalmente àqueles que não se enquadram num estereótipo de normalidade, estabelecido pela sociedade, em relação à sua sexualidade.

Um ponto importantíssimo na qualificação dos postulantes ao cargo de atendente é que ocorram mudanças no entendimento e no conhecimento sobre o fenômeno sexual humano. Em especial, a vivência do ser espiritual numa polarização sexual em distonia com sua formação biológica. Esta compreensão é fundamental para acabar com o conflito existente entre aquele ensino escolar ou familiar propagado como verdade e a verdade ensinada pela Doutrina Espírita, que não viola consciência, não impõe o medo, não ameaça pelo pecado, não liga toda e qualquer ocorrência atual a uma expiação e explica o “castigo” de Deus. No afã de querer ajudar sem possuir um mínimo de conhecimento doutrinário e científico, e assim não saber qual a melhor metodologia a ser aplicada para os casos envolvendo aqueles com orientação sexual conflituosa, pode acontecer um atendimento excludente, resultando no mesmo fenômeno observado em certas igrejas: a falta de acolhimento.

O atendimento fraterno de uma casa espírita deve ser o lugar onde as pessoas sejam acolhidas e desenvolvam um sentimento de pertencimento, especialmente aqueles que possuem uma orientação sexual diferente de seu sexo biológico.

Os benfeitores espirituais nos ensinam que Jesus é o guia e modelo de perfeição a quem devemos seguir. Seu ensinamento sobre caridade é o exercício da benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Proporciona-nos um modelo de conduta relacional baseada na paciência, no amor incondicional, no não julgamento, na aceitação incondicional do outro, no respeito às diferenças. É nessa caridade, pura e verdadeira, que encontramos a forma de viver em paz conosco, com o nosso próximo e principalmente com Deus.


Como proceder diante de uma pessoa em conflito com sua orientação sexual?

• Abster-se de perguntar se ela já procurou algum atendimento especializado (psicólogo, por exemplo), evitando classificar a orientação sexual como patologia. Caso pergunte, esclareça que o objetivo é saber se encontrou algum direcionamento para lidar equilibradamente com sua sexualidade.

• Desqualifique toda e qualquer ideia de cura pelos Espíritos. Desconstrua o ensino que fala ser uma doença física ou espiritual (uma expiação, por exemplo, como única explicação para tais comportamentos) o fato de a orientação sexual ser diferente do sexo biológico.

• Antes de falar, analise se aquilo que vai dizer não é fruto do seu processo educacional. Se não se enquadra dentro do seu conhecimento de certo ou errado, normal ou anormal. Seja natural e espontâneo. Não se contradiga através da expressão física ou nos gaguejos ao falar, demonstrando incoerência entre aquilo que prega e o que realmente sente.

• Ouça mais e fale menos. Ausculte. Acolha o irmão como a qualquer outro que busque o templo espírita, mesmo que suas convicções educacionais não aceitem ou concordem com tal situação.

• Coloque ao alcance do paciente o estudo da Doutrina Espírita e assim a compreensão dos processos que envolvem a reencarnação. Indique alguma atividade assistencial para canalização e aplicação equilibrada da energia sexual, como, aliás, deve ser feito a qualquer um que apresente algum transtorno ou desequilíbrio na área sexual, independentemente de sua orientação.

• Desmistifique o conceito de pecado. Tranquilize-o de que não será punido por apresentar uma orientação sexual contrária ao sexo biológico, mas sim por agir em contrariedade às leis divinas, como qualquer Espírito encarnado ou desencarnado.

O atendente fraterno deve adotar o comportamento semelhante ao que fez João Batista: “É necessário que ele cresça e que eu diminua.” (João, 3:30)

Conforme nos ensinou Jesus, “ninguém que põe sua mão no arado e olha para trás, é apto para o reino dos céus” (Lucas, 9:62). Aquele que se predispõe ao trabalho no atendimento fraterno, sabedor que atenderá essa clientela, deve primeiramente trabalhar em si mesmo os processos conflitivos resultantes de uma educação sexual repressora e impositiva e que muitas vezes entra em choque com a verdade ensinada pela Doutrina Espírita.


1. http//igrejacontemporanea.com.br/historia. Acesso em 20 de novembro de 2018.

- FRANCO, Divaldo Pereira. Novos Rumos para o Centro Espírita pelo Espírito Joana de Ângelis, ed. Leal