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Revista Internacional de Espiritismo • Dezembro 2018
O silêncio do Justo Diante de tão profundas divergências de entendimento, como poderia o Rei dos reis explicar a verdade ao Governador temporal da Judeia?
Rogério Miguez
rogmig55@gmail.com
01/12/2018

Marcantes em nossa história os embates entre as forças divinas e aquelas oriundas da milenar ignorância. Duelos inesquecíveis foram registrados ao longo de nossa jornada: Sócrates lutando contra o pensamento sofista de Atenas; Gandhi tentando libertar a Índia do impiedoso Império Britânico; Allan Kardec, então como Jan Huss, defendendo a Divindade do imoral pensamento religioso de sua época; Madre Tereza buscando aplacar a indiscriminada fome material e espiritual, frutos da ganância e da insensatez. São tantos os exemplos, contudo, talvez um de maior destaque, ainda a ecoar pelo fluido cósmico universal envolvendo a Mãe Terra, seja aquele travado entre o Nazareno e Pôncio Pilatos, há dois milênios.

Qual capricho do destino levou um Espírito puro, já plenamente liberto da etapa das compulsórias encarnações, as quais ainda estamos todos sujeitos, a cruzar de modo tão especial o caminho de outra criatura de Deus, esta ainda em fase primária de evolução, longe de ter alcançado a plenitude, em um encontro singular, no qual o primeiro se apresentava como Rei de um Reino desconhecido de todos, um Reino pertencente a outro mundo, enquanto o outro reinava absoluto na província da Judeia, o mandatário do poder soberano de Roma?

Os caminhos de Deus possuem estas surpresas, reúnem personalidades tão díspares, tão longínquas umas das outras, em todo e qualquer aspecto possível de se imaginar.

O orgulhoso político e Procurador da Judeia, do alto de toda autoridade de que se fazia investido, interroga o Príncipe da Humildade: “Que é a verdade?”[1]

A verdade... quantos a tem buscado avidamente ao longo dos tempos; muitos ainda a procuram em novas teorias, filosofias e mesmo através das religiões. A verdade, esta pedra preciosíssima reluzente como um caleidoscópio.

Seria possível Àquele que não era detentor sequer de uma pedra para recostar a cabeça ter a capacidade, o conhecimento, a justa percepção, para esclarecer a indagação daquele outro Espírito que aparentemente tudo possuía, porquanto, ao alcance de suas mãos estava o poder sobre a vida e morte, sobre a liberdade e a escravidão?

Por qual artimanha do destino colocaram-se aquelas duas criaturas de Deus, frente a frente, cada qual com a sua particular percepção de vida, tão destoantes, tão distantes, tão díspares?

O Justo calou-se, nada disse. Emudeceu, nenhuma resposta, sequer uma palavra. O silêncio foi a sua sábia atitude. Poderia ter dito a Pilatos qual era a única verdade, aquela dimanando eternamente de Deus? Sim, claro, mas seria proveitosa qualquer explicação àquele que nada entendia sobre as imortais virtudes ensinadas no Sermão do Monte?

Para o Rabi da Galileia a verdade era o Deus único, o Pai amado, o Senhor da imensidão; para Pilatos eram os muitos deuses da rica mitologia romana.

Para o Filho de Deus a verdade era o pleno exercício do amor, incondicional; para Pilatos, Roma era a única e possível verdade.

Para o Autor da Carta Magna da humanidade a verdade se traduzia no perdão, na fé, na misericórdia, na brandura e na pacificação; para Pilatos era a dominação pela força e a escravidão irrestrita dos vencidos.

Para o Piedoso de Cafarnaum a verdade era o dever cumprido; para Pilatos o resplendor do Direito romano.

Para o Meigo Messias a verdade era a simplicidade, a humildade e a singeleza; para Pilatos era a grandiosidade e a glória da ofuscante civilização romana.

Para o injustamente crucificado a verdade deveria ser vivida através do sacrifício do orgulho, da vaidade e mesmo da própria vida, se fosse preciso; para Pilatos o sacrifício era uma tentativa de barganhar e agradar os deuses, imolando seres vivos, se fosse preciso.

Para o Cristo de Deus a verdade era a aplicação da justiça divina, a solidariedade e a liberdade; para Pilatos só havia uma forma de convivência possível, aquela representada pela Pax Romana.

O Compassivo Nazareno foi representado pelo cordeiro, símbolo da cordura, mansidão e doçura; Roma era representada pela águia, símbolo de força, grandeza e majestade, cujas impiedosas legiões ostentavam orgulhosas no topo de seus estandartes.

Diante de tão profundas divergências de entendimento entre estes dois Espíritos, como poderia o Rei dos reis explicar a verdade ao Governador temporal da Judeia?

Pilatos precisaria ainda percorrer muitas vidas antes de começar a entender e vislumbrar a proposta de vida apresentada pelo Justo. Nem todos os Seus Apóstolos mais próximos puderam perceber, bem aquilatar a dimensão espiritual de Jesus, quem diria Pilatos. Este, em função de sua posição pusilânime e política naquele singular momento, além de perder a oportunidade de vislumbrar horizontes novos e promissores, deixando de lado os limitados e sufocantes oferecidos pela civilização romana, ganhou, segundo Amélia Rodrigues[2], um transtorno que o obrigava a lavar as mãos em uma vã tentativa de se ver livre do “pecado” cometido, conduzindo-o posteriormente ao suicídio, quando se atirou na cratera de um vulcão extinto.

Sim, o silêncio, foi a melhor resposta, a mais sábia decisão, mesmo diante da morte a anunciar-se prepotente, inclemente, definitiva, pois, sabia o Mestre dos mestres: em verdade, em verdade tudo é vida, só há vida, sempre haverá apenas vida, ou seja, a imortalidade.

E nós outros, os antigos e relutantes aprendizes da Boa Nova, alguns, eternos candidatos a seguidores das pegadas do Celeste Instrutor, o que temos feito para deixar de lado definitivamente a política astuta de Pilatos, que nos seduz variadas vezes, para viver a grandiosidade da mensagem de Jesus?

Temos ainda libertado Barrabás em nosso dia a dia e condenado o Cristo ao madeiro da infâmia? Temos sido os juízes da iniquidade, silenciando as vozes dos sofridos e necessitados batendo à nossa porta constantemente?

Às vezes falamos muito e nada dizemos; outras, silenciamos e a nossa mudez diz mais do que mil eloquentes discursos.

A vida segue, sem possibilidade de ser interrompida. Vivamos, pois! Hoje e sempre com as inolvidáveis promessas do Justo, bem presentes em nossos corações e mentes, guiando-nos e conduzindo-nos pelo cipoal da insensatez que se apresenta nos dias obscuros e sombrios, caracterizando estes enigmáticos tempos modernos, sempre rumando ao agradável e inexorável amanhecer que se sucederá, mais hoje, mais amanhã.


1. O novo testamento. Trad. Haroldo Dutra Dias. 1.ed. 1.imp. Brasília: FEB, 2013. Jo. 18:38.

2. FRANCO, Divaldo Pereira. Pelos caminhos de Jesus. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. 7.ed. Salvador: LEAL, 2012. cap. 24.