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Revista Internacional de Espiritismo • Dezembro 2018
Experiências de fim de vida e Espiritismo - Entrevista com Guilherme Riccioppo Rodrigues Diferentemente de alucinações, elas acontecem no limiar do desencarne, são espiritualmente transformadoras e podem ser verificadas
Cássio Leonardo Carrara
cassio@oclarim.com.br
01/12/2018

Guilherme Gustavo Riccioppo Rodrigues é natural de Salvador (BA). Ainda em seu primeiro ano de vida, sua família mudou-se para Uberaba (MG), cidade em que viveu até graduar-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, em 2001. Radicado em Ribeirão Preto (SP) a partir do ano seguinte, onde reside desde então, fez residência, mestrado e doutorado em Neurologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). No dia 19 de maio de 2018 foi um dos expositores do 4º Simpósio Mente e Cérebro, promovido pela Associação Médico-Espírita de Ribeirão Preto, no qual estávamos presentes, quando falou sobre experiências de fim de vida (EFV), motivando a realização desta entrevista. Dr. Guilherme fala sobre os casos de EFV, a razão de não poderem ser confundidas com experiências de quase-morte ou com alucinações, e de que forma essas experiências são importantes na transformação moral e espiritual dos pacientes que as vivenciam.


RIE. Você é de família espírita? Caso contrário, como se aproximou do Espiritismo?

Guilherme. Sou de família espírita e desde muito cedo tive grande interesse pela literatura espírita. Tive oportunidade de participar por alguns anos do Centro Espírita Jesus de Nazaré e da Comunhão Espírita Cristã de Uberaba, tendo tido o privilégio de conviver com pessoas inspiradoras dentro do movimento espírita uberabense, como dona Domingas, dona Altiva Noronha, dona Geralda Sabino, dona Dalva Borges — braço direito de Chico Xavier por muitos anos —, Dr. Elias Barbosa, entre tantas outras personalidades. Mudando-me para Ribeirão Preto, entrei para a família da Associação Médico-Espírita de Ribeirão Preto, capitaneada pelo Dr. Tácito Sgorlon.

 

RIE. Para os profissionais de saúde, qual a importância de discutir o tema saúde e espiritualidade?

Guilherme. Esse tema é de fundamental importância. Primeiro, porque faz parte do tratamento médico compreender os medos e expectativas do paciente; tal compreensão passa necessariamente pela percepção de como o paciente lida com a própria espiritualidade. Segundo, porque há um conjunto enorme de evidências na literatura médica mostrando como a variável “espiritualidade” tem um impacto direto no prognóstico de várias condições médicas, seja por maior aderência ao tratamento, seja por fatores ainda não completamente entendidos. Por fim, a ciência tem lentamente se rendido às evidências de que o paradigma materialista é incapaz de explicar o “homem” como um todo, sendo necessário, portanto, que estejamos com a mente aberta para a investigação de fenômenos “anômalos” e suas implicações.

 

RIE. Como conceituar cientificamente as experiências de fim de vida (EFV) e quais suas principais características?

Guilherme. As experiências de fim de vida (EFV) referem-se a um grupo de fenômenos inexplicáveis, sob a óptica do paradigma científico materialista, que ocorrem com pessoas nos últimos dias ou horas de vida na Terra. Embora ainda desconhecidas da maioria das pessoas, as EFV são muito comuns, sendo observadas por até 90% dos profissionais de saúde que trabalham com pacientes terminais, e têm características clínicas muito semelhantes em estudos publicados com pacientes de várias culturas do mundo. Esses fenômenos podem ser classificados em: 1) Visões de fim de vida: são as manifestações mais comuns dentro das EFV, ocorrendo entre 80% e 90% dos casos; 2) Lucidez terminal: é um fenômeno mais raro, embora existam relatos bem documentados de casos impressionantes, em que pacientes com quadros neurológicos graves recuperam a consciência nas últimas horas de vida; 3) Eventos sincronísticos: referem-se às chamadas “coincidências” que ocorrem no momento do falecimento, existindo descrições variadas como alteração da temperatura no quarto, alteração no comportamento de animais, fenômenos luminosos ou sonoros, relógios que param no exato momento da morte, entre outros; e 4) EFC remotas: são fenômenos que ocorrem com alguém próximo do paciente no momento de seu desencarne e os principais relatos na literatura referem-se a sonhos vívidos, sensações intensas e aparições.


RIE. De que forma as EFV podem ser espiritualmente transformadoras?

Guilherme. Vamos tentar contextualizar com um caso ilustrativo. A família está à beira do leito. O parente amado está sofrendo uma doença terminal, em que a morte é uma certeza. Tudo aquilo que a pessoa representou um dia simplesmente irá encerrar-se dentro de algumas horas ou dias e apenas restarão lembranças. Todos se sentem desamparados frente à irreversibilidade da situação, da inevitabilidade da perda, antecipando a dor da saudade futura... Mas de repente algo acontece. O semblante do doente se ilumina e ele começa a conversar serenamente com alguém invisível. Por breves momentos, é como se a vida tivesse voltado àquele corpo alquebrado, como se a atmosfera fúnebre se convertesse num clima de paz e esperança, como se uma brisa fresca penetrasse no quarto. Para novo espanto de todos, o paciente cessa sua conversa com a figura invisível e volta-se para eles. Com os olhos brilhando como nunca visto antes, o ente querido anuncia a todos que sua esposa querida, desencarnada havia 10 anos, ali estava para buscá-lo. Que já antevia o lindo local para onde iria e que todas as suas dores já estavam amenizadas. Que não chorassem por ele, pois onde estivesse, o amor entre eles permaneceria o mesmo e ele jamais deixaria de olhar por eles. À medida que pronuncia suas últimas palavras, o brilho de seus olhos vai se reduzindo, seus olhos se fecham, seu ritmo respiratório diminui até desaparecer, sua pele se torna pálida e o paciente desencarna. Em linhas gerais este é o tipo de fenômeno com que estamos lidando aqui. A partir do momento em que entendemos o que está acontecendo, essa experiência se torna algo muito profundo, fazendo com que pacientes e familiares encarem a morte mais como uma transformação do que como verdadeiramente o fim da vida.

 

RIE. Há algum caso de evento sincronístico relatado na literatura que mereça menção?

Guilherme. Em julho de 2007, a revista médica mais importante do mundo, New England Journal of Medicine, publicou um interessante artigo relatando um dia na vida de Oscar, um gato que mora num lar para pacientes terminais em Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos. Segundo o relato, Oscar possui a curiosa habilidade de prever quando os pacientes estão prestes a desencarnar. A exatidão de sua aptidão tornou-se tão confiável que a própria equipe médica começou a avisar a família para vir à clínica sempre que “alertada” pelo gato.

 

RIE. Por que as EFV não podem ser confundidas com alucinações?

Guilherme. São fenômenos muito diferentes. Alucinações são comuns em pacientes em estado confusional agudo, secundário a várias causas como alterações metabólicas, medicações, infecções, privação sensorial etc.. Elas se caracterizam por serem estereotipadas (insetos, animais, crianças), persistentes, recorrentes, incoerentes e associadas a um comportamento agitado, assustado ou paranoico. Nas visões de fim de vida, na grande maioria dos casos, o paciente vê um familiar próximo já falecido; são de curta duração e têm o propósito de prepará-lo e à família para o desencarne próximo, associando-se a um comportamento tranquilo, pacífico e, com muita frequência, espiritualmente transformador. Essa diferença clara entre as alucinações e as EFV pode ser observada na prática, pois segundo um estudo publicado com profissionais de saúde brasileiros em 2017, na revista Palliative and Supportive Care, aproximadamente 70% dos entrevistados se sentem capazes de diferenciar uma situação da outra.

 

RIE. O que diferencia as EFV das experiências de quase-morte (EQM)?

Guilherme. Nas experiências de quase-morte, o paciente volta à sua vida normal depois, o que não ocorre nas EFV. É muito interessante que, embora os fenômenos das EFV e EQM possam ser semelhantes quanto à forma (vislumbre do mundo espiritual), em geral sua narrativa é diferente. Nas EQM alguns pacientes são orientados a voltar ao corpo físico, pois ainda não teria chegado o momento de sua morte, enquanto que nas EFV alguns pacientes são orientados a ter calma, confiança e tranquilidade para o momento do desencarne próximo.

 

RIE. Qual a contribuição espírita para o entendimento das EFV? Há relação com o período de desligamento do Espírito do corpo físico?

Guilherme. A ciência não é capaz de entender as causas do fenômeno, cabendo-lhe apenas registrá-lo, classificá-lo e determinar as situações que lhe são associadas. A Doutrina Espírita, ao contrário, por nos trazer em seu corpo filosófico a ideia da sobrevivência do Espírito à morte do corpo físico, elucida a causa desse fenômeno. Mais precisamente, de acordo com o que O Livro dos Espíritos ensina na questão 157, que as EFV se devem ao desligamento parcial da alma, “(...) já parcialmente separada da matéria, vê o futuro desenrolar-se ante ela e goza por antecipação do estado de Espírito”.

 

RIE. Vamos falar sobre as EFV remotas. Nesses casos as visões necessariamente envolvem pessoas que desencarnaram há poucos instantes?

Guilherme. Sim. Chamamos de EFV remotas aos fenômenos anômalos que ocorrem em pessoas emocionalmente ligadas ao paciente que está para desencarnar, usualmente parentes próximos. Segundo um levantamento de 49 casos realizado pelo Dr. Peter Fenwick, da Universidade de Southampton, cerca de 99% dos casos ocorrem num período de até uma hora precedendo o desencarne e se caracterizam principalmente por visões, sensações intensas ou sonhos vívidos com o familiar em questão. Este tipo de EFV é o de maior poder probatório, pois nesse caso não há como apelar para a hipótese de alucinação secundária a estado confusional.

 

RIE. Pessoas que passaram por experiências de fim de vida apresentam algum tipo de modificação comportamental ou começam a entender a vida de outra maneira?

Guilherme. Vários estudos publicados na literatura ilustram de que modo essas experiências têm um papel determinante na percepção da morte do corpo físico como um processo natural de continuação da vida. Essa visão renovada faz com que o paciente e os familiares encarem o processo de desencarne com mais confiança e serenidade, amenizando a dor do luto, promovendo reconciliações e até mesmo produzindo melhora de parâmetros clínicos como a tolerância à dor ou a falta de ar.

 

RIE. Suas palavras finais.

Guilherme. Os estudos com EFV constituem mais uma robusta evidência contra o paradigma materialista. Adicionalmente, esses fenômenos nos mostram que nem mesmo na solidão da morte nós nos encontramos desamparados. Pelo contrário, a presença dos Espíritos que nos são caros, secundando-nos nos instantes finais, é mais uma grande prova de que o amor a tudo subsiste, até mesmo à morte. Finalmente, os espíritas devemos sempre nos lembrar que a morte é a mudança de vestuário que invariavelmente chegará a todos, muitas vezes inesperadamente. Estarmos preparados para a grande viagem significa viver o presente, conscientes de nossa transitoriedade, sem tanto apego às coisas deste mundo, mas procurando cultivar as qualidades intelecto-morais que de fato serão as determinantes das condições mais ou menos felizes em que nos encontraremos no retorno à pátria espiritual.