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Revista Internacional de Espiritismo • Junho 2017
O idoso no movimento espírita É preciso somar a sabedoria do mais velho com a energia do mais novo para que ambos saiam enriquecidos dessa experiência.
Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante
walkirialucia.wlac@outlook.com
01/06/2017

“(...) É justo que os filhos cooperem com os pais, embora saibamos que os mais jovens de hoje serão os mais velhos de amanhã tanto quanto os maduros de agora, desempenharão, muito em breve o papel de jovens no futuro. Tudo é sequência na Lei.” (Emmanuel – Reformador, julho/76 – 22/04/1951)

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a etapa de nossas vidas denominada velhice começa aos 65 anos. Verificando-se a população atual eminentemente ativa e levando-se em consideração os facilitadores ambientais, farmacêuticos e alimentares, podemos afirmar, sem titubear, que mesmo os que atingem esta idade conseguem fazê-lo em condições bem melhores que os nossos antepassados.

Agregando-se às condições já citadas a parte religiosa, o idoso tem grande ganho de qualidade de vida. Não estamos nos atendo aos trabalhos vinculados a costura ou distribuição de donativos como via na minha infância. Hoje, os idosos trabalham em outras frentes nas instituições espíritas. Aplicam passes, trabalham nas reuniões mediúnicas, fazem palestras e executam tantos outros trabalhos que existam. São figuras participativas na sociedade e na religião que promanam, no nosso caso, a espírita.

Faz-se necessário um adendo com relação aos extremos. Nestes casos, o problema não se vincula à idade, mas à inabilidade para a execução do trabalho ou à decisão dos mais de jovens de “poupar” os idosos, com o pretexto de ajudá-los, mesmo se eles estiveram aptos a realizar a tarefa.. Vemos que pode haver uma interação salutar entre os mais jovens e os mais velhos quando os envolvidos desejam. Problema se estabelece entre os ditos adultos e mais velhos quando os primeiros não sabem lidar com os mais velhos, ou quando os mais velhos (inabilmente) tentam impor suas convicções por serem mais velhos.

Mesmo lentamente, observamos uma mudança de comportamento no mundo: os países estão “envelhecendo”. Antes esta parte da população morria ou era colocada em asilos, ou mais ainda, convivia com a família sem direito a manifestar-se, pois estava “velha”. Antigamente, essas pessoas eram consideradas velhas para o mercado de trabalho, mas hoje as empresas as contratam por considerarem sua experiência, agregando valor ao processo produtivo.

Nós, do movimento espírita, precisamos também enxergar os mais velhos desta forma. É preciso somar a sabedoria do mais velho com a energia do mais novo para que ambos saiam enriquecidos dessa experiência. Todos nós temos dificuldade de abrir espaço para que o outro cresça, mas quando podemos usar de nossa experiência para facilitar o crescimento do próximo, e ainda o fazemos em benefício da doutrina, ganhamos triplamente: crescemos como criaturas, porque nos tornamos úteis, ajudamos no amadurecimento bem orientado do semelhante e contribuímos com o bem comum e propagação do Espiritismo. É uma via de mão dupla. Ceder não significa perder espaço, mas multiplicar a força de trabalho, perpetuando o bem comum.

Outro ponto a ser levantado é que não somos descartáveis. Principalmente nós, do movimento espírita, não podemos pensar dessa forma. Sabemos que o espírito é eterno, que vivemos etapas da vida através das reencarnações; então, todo este processo de infância, fase adulta, velhice e desencarnação cumpre o processo normal e natural da evolução. Vivenciamos em cada uma dessas fases o necessário aprendizado para nosso progresso. Como então furtar da criatura o que lhe é devido por direito? E nós, que também estamos no movimento e não atingimos a idade madura, vamos querer ser convidados à condição de simples frequentadores da instituição, como se já tivéssemos completado o nosso contributo à doutrina?

Quando a primeira edição de O Livro dos Espíritos foi publicada, Kardec contava 53 anos. Para os padrões da época, ele era idoso. Imaginemos se ele tivesse se acomodado e acreditado que não tinha condições de realizar o trabalho? Provavelmente teríamos esperado um pouco mais para que outro realizasse o trabalho. Este é outro ponto importante a ser destacado: nunca é tarde para começar a realização de nenhum trabalho. Se, em virtude de várias circunstâncias na encarnação, a pessoa só pode dedicar-se ao trabalho na idade mais madura, que as instituições espíritas também estejam preparadas para receber este público que bate à porta e nos solicita trabalho.

A religião, como função de religare, religa-nos a Deus e suas Leis, mas também ao nosso próximo. Não há lugar melhor para exercer esta função e praticar a caridade do que em uma instituição espírita. É gratificante trocar experiências e ser uma fonte alimentadora de energia e vigor para aqueles que estão mais a frente na caminhada carnal. Precisamos compreender e valorizar a dificuldade dos mais velhos em permanecer fiéis a um ideal por tanto tempo, mesmo com tantos convites contrários, como família, trabalhos e outras propostas que surgem ao longo da vida, bem como os mais jovens, que mesmo em um meio atualmente tão convidativo para a quebra de regras e o distanciamento dos valores morais, procuram estar nas casas espíritas (e em grande número), desejosos de entender sobre o mundo espiritual, a reencarnação e o porvir.

Por fim, gostaria de acrescentar que ainda não atingi a idade madura nesta encarnação, então não estou advogando em causa própria. Mas entendo que quando nos abrimos ao saber, escancaramos uma janela nova para o autoconhecimento e nos permitimos ter experiências enriquecedoras. As minhas melhores oportunidades de aprendizado no movimento espírita foram por mãos que contavam mais de 65 anos – aproveito este artigo para agradecer a todas elas. No atual momento que vivemos, sabemos que alguém já trilhou a estrada antes de nós e mesmo que não tenha pegado em nossas mãos e nos ensinado o caminho a seguir, através de seu próprio caminhar indicou o caminho a seguir. Como o Mestre Jesus fez e ainda faz por nós. Que sejamos nós também uma seta viva a indicar o caminho para aqueles que vêm após nós.